Ser gente boa não custa nada: 7 dicas para enviar originais para editoras

Cresci cercada por livros e, como bem podia ser de se esperar, acabei me metendo no meio editorial. Trabalhei por cinco anos numa editora, hoje em dia faço freelas pra outras e, bem, estou agora experimentando o outro lado da situação, sendo publicada por uma! Na editora em que trabalhei, uma das minhas (muitas) funções era ler, avaliar e responder os e-mails com originais que autores queriam publicar. Era uma tarefa às vezes tranquila, às vezes um pouco hilária, às vezes estressante, mas uma tarefa que me ensinou muito sobre o que as pessoas fazem muito totalmente inteiramente super demais da conta de errado ao enviar material para uma editora.

Vou espalhar por aqui, então, meu conhecimento adquirido: algumas dicas pra mandar bem no seu e-mail com original. Fica o disclaimer de que isso não é um caminho garantido para ser publicado por ninguém (muito menos pela editora na qual eu trabalhei, nem trabalho mais lá, nem mencionei por nome aqui, por favor não encham o saco deles) e que editoras diferentes têm processos diferentes (e muitas não aceitam originais direto de autores, ou só aceitam para alguns selos)! Disclaimer #2: nada disso é indireta para ninguém, se você já fez uma das coisas que digo para não fazer não precisa ficar péssimo e chorar e achar que estou falando mal de você, é normal, todos erramos (eu já fiz tanta besteira na vida, gente, vocês nem imaginam), isso não é um post de treta, é só de ajuda mesmo!

DICA 1: Conheça a editora: a primeira coisa que você precisa fazer antes de mandar um original para uma editora é saber se o seu original combina com aquela editora. Para isso, entre no site e veja os títulos que eles publicam, conheça os selos nos quais o seu trabalho se encaixa, e só entre em contato com aquelas que fizerem sentido para o que você deseja publicar. Não adianta nada ter um livro de poesia concreta e mandar para uma editora que só publica autoajuda, sabe? Por outro lado, também não é legal mandar um original que é basicamente igual a outro livro que a editora já publicou – uma coisa é mandar um livro erótico para uma editora que publicou um livro erótico de enorme sucesso, outra coisa é mandar um livro erótico sobre vampiros super sensuais que vivem no sul da França para uma editora que publicou um best-seller erótico sobre vampiros super sensuais que vivem no sul da França.

DICA 2: Leia o FAQ: olha só, gente, antes de mandar um e-mail fazendo perguntas, LEIA O FAQ. Não só o FAQ, mas todas as páginas do site da editora que podem te dar alguma informação sobre o processo de seleção de originais, sobre o catálogo, sobre o processo editorial. Iniciar o contato com uma pergunta cuja resposta você poderia descobrir por conta própria é um jeito de fazer o profissional da editora perder tempo. Mandar um e-mail indo inteiramente contra as orientações explicadas no site da editora também é. Além do mais, mostra descuido e falta de preocupação com os editores – lembre que, se seu livro for publicado, você terá que trabalhar com essas pessoas!

DICA 3: Mande só o texto: algumas editoras pedem só um trecho, outras o original inteiro, outras só pedem o original depois de ler a sinopse, isso tudo varia. Mas, quando for hora de mandar seu original, mande o texto. Não mande um projeto gráfico completo, porque isso é trabalho da editora. Não diga que “o livro está pronto, é só imprimir!” porque é mentira – se fosse só imprimir, editoras não seriam necessárias. Não diga que “já foi revisado, nem precisam revisar de novo” porque um livro pode ter sido revisado cinco vezes e mesmo assim uma outra revisão será sempre útil (eu nunca, nunquinha mesmo, em cinco anos de profissão, revisei um livro sem marcar pelo menos um errinho). Claro que se for um livro ilustrado, ou se o projeto gráfico for fundamental (e eu quero dizer FUNDAMENTAL MESMO, gente, fundamental do tipo “o livro não poderia ser nunca publicado de jeito nenhum porque não faria nenhum sentido pra ninguém sem esse projeto gráfico”, não fundamental do tipo “eu amo o projeto e é minha ~~~visão”), aí você pode mandar com esses elementos, mas qualquer coisa além do fundamental atrapalha mais do que ajuda.

DICA 4: Mas mande o texto pronto!: todos os dias eu recebia pelo menos um e-mail de alguém dizendo “desconsidere o original anterior, segue agora uma versão atualizada”, ou algo do tipo. Por favor, não faça isso! Primeiro porque se o editor já estava avaliando seu original, isso é jogar o trabalho dele fora. Segundo porque se o editor avaliou o primeiro e achou péssimo, a vontade de avaliar o segundo será: zero. Terceiro porque mostra que, claramente, o seu texto ainda não está pronto! Não adianta terminar de digitar “FIM” no seu arquivo de Word e mandar para a editora direto – escrever exige muita edição própria antes (olha, tô até dando umas dicas de escrita aqui), exige reler e pensar e dar para um amigo de confiança ler também e mexer em uma coisa ou outra, e é para isso ser feito antes do original ir para a editora. É claro que o arquivo pode sofrer mudanças durante o processo editorial – sugestões dos editores ou dos revisores, pequenas coisas que passaram e você, autor, gostaria de mudar –, mas o texto tem que estar suficientemente pronto para que a pessoa avaliando ache que ele é publicável, não que ele tem potencial para ser publicado depois de umas dez releituras e cinquenta mudanças.

DICA 5: Follow-up é uma arte delicada, não exagere: em geral as instruções da editora (veja: DICA 2) vão te dizer algo sobre o tempo esperado para avaliação – ou que é de aproximadamente sei-lá-quantos-meses, ou que não podem garantir agilidade, ou que não respondem com rejeições, ou o que quer que seja. Por favor não encham o saco dos editores com perguntas antes do que é previsto, ou se as instruções pedem para não follow-up. Sério, gente, é só chato. Se vocês não têm nenhum tipo de informação sobre prazos e follow-up, vocês podem entrar em contato de novo depois de um período razoavelmente longo de tempo (eu diria uns três meses?), mas o contato não pode ser “por que não me responderam??????? ninguém me ama?????? por que não querem me publicar??????????” ou uma série de xingamentos, porque isso é garantia que ninguém vai querer trabalhar com você como autor.

DICA 6: Seja legal no e-mail: o e-mail em si deve ser educado e simpático, sem autodepreciação nem egos exagerados. Já recebi muito original acompanhado de coisas como “o livro nem é muito bom, eu sei, é meu primeiro, desculpa, não tenho experiência”, mas isso só me faz achar que o livro não vale a pena – não é uma redação de colégio, sabe, não é uma questão de “aaaah, poxa, pro primeiro livro até que não é tão horroroso, quem sabe eu publico”, porque o livro precisa mesmo ser publicável! Ninguém é café com leite porque deu argumentos autodepreciativos! O contrário, no entanto, é igualmente ruim: e-mail cheio de “eu sou o máximo, tenho esses trinta amigos famosos, todo o mundo que eu conheço adora meu livro” demonstra um ego fora do controle e normalmente nada coerente com a qualidade do trabalho. Se você tiver coisas relevantes para a publicação do livro – por exemplo, um real sucesso na internet, destaque no seu campo profissional (que é o tema do livro!), outros livros publicados –, por favor conte no e-mail! Mas “minha mãe é muito fã desse livro, até chorou quando leu” e “conheço um monte de celebridades” são informações igualmente inúteis (e que me dão muita preguiça).

DICA 7: Duas coisas importam: a qualidade do original e a sua personalidade: não é que a editora vá deixar de publicar um livro excelente porque o autor é chato, nem que a editora vá publicar um livro ruim porque o autor é super gente boa. Mesmo assim, sua personalidade no contato importa, porque é um contato profissional, porque se a editora optar por te publicar você vai ter contato com essa equipe por um bom tempo, porque a galera do mundo editorial se conhece toda e se você for um babaca com uma editora você vai se queimar fácil. Ou seja, não dê ataques se for rejeitado, não xingue as editoras nas redes sociais (a gente vê), não faça chantagem emocional para ser publicado, não telefone toda semana para a editora pedindo para falar com o chefe, seja respeitoso com as pessoas que trabalham ali, porque são profissionais daquela área. Ser gente boa dá bem menos trabalho do que ser babaca, e é bem melhor para todo mundo!

Acho que essas são minhas dicas principais, mas estou aqui para tirar dúvidas de quem tiver perguntas sobre qualquer coisa desse processo. Se vocês curtirem, faço mais posts desse tipo!