Sobre o final controverso de Pretty Little Liars

SPOILER ENORMES A SEGUIR. SE VOCÊ NÃO VIU PLL E PLANEJA VER E NÃO QUER SABER A MAIOR REVELAÇÃO DO FINAL, NÃO LEIA. SÉRIO.

Ontem, eu estava decidida a fazer meu post de hoje sobre a mais-ou-menos-finale de Pretty Little Liars. Eu esperava que o episódio fosse revelar coisas de uma certa forma, e a narrativa para meu recap já estava clara na minha cabeça – é a minha narrativa geral sobre PLL. Só que a grande revelação do episódio – a identidade de A – foi exatamente a que eu temia mas não desejava a ponto de não acreditar que seria possível. Consequentemente, eu passei as últimas 24h tentando processar esse episódio.

É o seguinte: eu queria (esperava?) que A fosse um homem cis hétero branco. Sabe, os verdadeiros vilões de Rosewood, como a série já demonstrou diversas vezes. Eu queria o Ian, eu queria o Andrew, eu queria o Wren, o Ezra, o Toby, o Byron, o Kenneth, qualquer um deles, só escolher um. Porque, afinal, seria simples: Rosewood é o patriarcado posto sob uma lupa, é uma cidade em que todos os homens adultos se interessam sexualmente por garotas adolescentes, uma cidade em que essas quatro garotas adolescentes são “pretty little liars”, bonitinhas, desconsideradas, nada confiáveis, como, afinal, aprendemos que garotas adolescentes devem ser. Mas PLL é uma narrativa frequentemente queer e subversiva e metade das garotas na série é queer, e os homens são vilões, e a amizade delas é o que pode salvá-las, e elas usam o que esperam delas para manipular os outros, e a violência que elas sofrem tem um claro viés misógino (não é à toa que A chama elas de bitches ou dolls, essa dualidade imposta às mulheres) e elas sabem disso e fazem o possível para mudar a situação.

Por outro lado, PLL é uma série da ABC Family, e muitas das mensagens que eu leio na narrativa são feitas de forma sutil, porque a série não quer abrir mão dos casais românticos héteros, dos homens gatinhos tirando a camisa, mesmo quando esses romances reforçam coisas extremamente negativas (sim, Ezria, estou falando de você). Os atores podem achar c e r t o s casais os piores do mundo, o Norman Buckley pode dirigir as cenas entre c e r t o s casais tentando reequilibrar o desequilíbrio de poder, a série pode até botar “Every breath you take” pra tocar numa cena que normalmente seria vista como romântica, mas isso tudo fica no campo do não-dito, claro o suficiente para que eu e outros espectadores entendam e interpretem, mas não claro o suficiente para a massa de garotas adolescentes que a série quer conquistar.

É por isso tudo que o episódio de ontem me deixou… confusa. Porque, no fim das contas, A é uma mulher trans, irmã de Ali, chamada Charlotte. Ou, como a conhecemos, Cece Drake. Charlotte, que na verdade não era uma criança assassina, mas sim somente uma garota trans filha de um pai transmisógino, mas sim uma garota nascida na família DiLaurentis (e se a Ali turned out como ela turned out, imagine Charlotte, que sofreu ainda mais violência dentro da família e fora dela?), uma garota que, por ser quem é, foi trancafiada em Radley. A narrativa foi bem costurada, e, na minha opinião, a série tomou o cuidado claro de indicar que Charlotte se torna A como resultado da violência que sofreu, como resultado da criação dada a ela pelos DiLaurentis, como resultado de uma vida forçada a se esconder, trancafiada num hospital psiquiátrico, como resultado da opressão transmisógina do microcosmos do patriarcado que é Rosewood; para mim, ficou claro que o verdadeiro vilão da história, no fim das contas, é Kenneth (que, além do mais, provavelmente matou a Mrs. D, né, vamos concordar). Mas a série peca fatalmente em dois momentos, mesmo quando consideramos a narrativa autocontida: ao mostrar Charlotte mentindo sobre quem é para se aproximar de Jason, perpetua o estereótipo de que mulheres trans mentem sobre quem são, que são por natureza dissimuladas, que “enganam” os outros sobre sua “verdade”; e ao insistir em, dentro do episódio, chamá-la de Charles e por pronomes outros que “her”, ensina para os espectadores que, em alguma situação, qualquer que ela seja, é ok misgender uma pessoa trans (spoiler: não é ok).

E, por conta de tudo que eu falei, é, em grande parte, uma decisão irresponsável. Narrativas não são consumidas em um vácuo, e colocar uma mulher trans como personagem central só para colocá-la como a vilã dissimulada é dar ainda mais peso para esse lugar narrativo que é um dos únicos dados a essas personagens (além do papel de vítima sem agência). Explicar isso tudo em 40 minutos falha em mastigar para o espectador a complexidade da personagem, e permite a interpretação de que há algo de perturbado intrinsecamente na transgeneridade de Charlotte. Explicar isso no último episódio falha em dar aos espectadores possibilidade de perdoá-la, de compreendê-la, tão completamente como foram capazes de perdoar e compreender Ali e Mona pelas atrocidades que cometeram, por exemplo (afinal, Charlotte de fato sequestrou e torturou essas garotas; mas, como ela mesma diz, “Mona ran Hannah over with a car, and they’re friends”, então cometer violência é de praxe em Rosewood). Eu sou, sempre, muito a favor de mulheres (cis) vilãs na ficção, que são vilãs E mulheres, não vilãs PORQUE mulheres. Eu seria, em teoria, a favor do mesmo para mulheres trans – mas não sinto que estamos lá ainda, fora do vácuo de PLL; sinto que, infelizmente, uma decisão narrativa como essa dá mais margem a mal do que a bem.

Não sou, claro, a pessoa certa para falar sobre isso – estou dando minha opinião de espectadora e de feminista, mas sou uma mulher cis, e minha interpretação dos pesos positivos ou negativos dessa escolha narrativa pode estar errada, por estar firmada em privilégio.

Como de costume, o recap de Heather Hogan (escrito após uma conversa dela com Mey, a editora de assuntos trans do Autostraddle) soube colocar em palavras melhor do que eu sou capaz o que foi bom e ruim nesse episódio, nessa escolha. Deixo vocês com uma quote dela, e recomendo que não deixem de ler o recap inteiro:

“At its core, Pretty Little Liars is a story about the way men assume ownership over women’s bodies, strip away their agency, deprive them of their of autonomy, deny them subjectivity, and silence them. It’s a story about how female victims are blamed for the crimes perpetrated against them by men. It’s a story about existing for the male gaze. But it’s also a story about found family, and the blazing blue power of women’s relationships with each other. It’s about dancing like nobody’s watching, even when you know somebody’s watching. It’s about being a woman and getting up and getting dressed and putting on your makeup and eating eggs with your mom and drinking coffee with your soul sisters and going to work and going to school and living living living despite the constant, incessant battle that is raging around you for control of your body and your sexuality. It’s about losing that battle, over and over, and huddling with your friends in the rain until you’re strong enough and brave enough to get up and fight it again. It’s a love story about four women who are empowered by their intimate knowledge of each other and abiding affection for each other.

(…)

The true villain of Pretty Little Liars is Kenneth DiLaurentis, and in painting Charlotte as a sympathetic character who was the ultimate female victim of the grossness of the patriarchy, the show elevated the very best things about itself. Kenneth DiLaurentis is the embodiment of transmisogyny and the head of Rosewood’s mighty beast of patriarchal oppression. The Liars don’t forgive Charlotte because they feel sorry for her; they forgive her because they see themselves in her. They are fighting the same thing. Masks on masks on masks on masks, performing for the male gaze, clawing for authenticity and freedom.”

Ok, por último, comentários pontuais sobre outras pequenas coisas da finale:

1. A história toda da Sarah foi feita de um jeito péssimo e preguiçoso, e eu espero mais desenvolvimento quando a temporada voltar.

2. Kenneth matou a Jessica, por favor todos concordemos com isso.

3. Mona e Spencer são, como sempre, as pessoas mais maravilhosas na face da Terra, com armas nos sapatos e capacidade de desarmar bombas em segundos, e eu quero uma série especial só pra elas duas (e a Hannah) interagindo.

4. Pessoalmente, eu não ligo pros buracos e pras inconsistências de timeline ou de plot. Eu concordo com o Norman Buckley nesse ponto: é dream logic. Para mim, PLL não precisa fazer sentido num nível prático, desde que faça sentido num nível maior narrativo.

5. Mais leituras recomendadas sobre o ep (além do recap da Heather, sério, LEIAM O RECAP DA HEATHER): a análise do Jacob Clifton e os comentários da própria I. Marlene King.