Orgulho nerd para quem?

Na minha infância e no começo da minha adolescência, “nerd” era um insulto. Quando me chamavam de nerd no colégio, estavam dizendo que “não me convidavam para festas porque eu preferia ler” (algo que eu de fato ouvi; na verdade, eu não sabia se preferia livros ou festas, já que nunca me davam a oportunidade de descobrir [um dia eu descobri que prefiro livros, mas isso é outra história]), estavam dizendo que eu não sabia me vestir (meu guarda-roupa infantil é de dar inveja nos Tumblrs de moda estilo anos 90 por aí), estavam dizendo que eu nunca teria amigos (eu tinha), que eu nunca teria um namorado (eu não queria um tanto assim, quando eu quis, eu tive), que eu só ia bem na escola e ganhava as eleições de representantes de turma porque eu roubava (leia-se: estudava, prestava atenção, essas coisas; porque esforço é desvalorizado, e só valia eu ir bem se fosse por ~~mágica). Nerd era tudo que não queriam que eu fosse, mas eu não conseguia entender qual era o problema de ser o que eu era. Porque, na verdade, eu era também bastante arrogante – quanto mais me botavam para baixo, mais eu me sentia moralmente, intelectualmente, inteiramente superior.

Para nos proteger dessas agressões (que, quando acumuladas, me faziam chorar a tarde inteira no meu quarto), eu e meus amigos (pois é, eu tinha vários) decidíamos aceitar os insultos que jogavam na gente e usá-los a nosso favor. Éramos estranhos? SIM. Éramos perturbados? SIM. Éramos “malucos”? SIM. Chamávamos a casinha de boneca em que gostávamos de passar o recreio (uns oito de nós, esmagados lá dentro) de “hospício”, já que era assim que tentavam nos ofender. Ríamos das fofocas que contavam sobre a gente. Tentávamos virar caricaturas do que diziam que a gente era – eles querem nerds estranhos? Pois eles terão nerds estranhos!

Por isso tudo, quando essa coisa de “nerd” virou positiva, quando narrativas decidiram que era maneiro gostar de videogames e não ser muito bom em situações sociais e ler todos os livros que passassem na sua frente e discutir quadrinhos por três horas a fio, quando inventaram a ideia de “orgulho nerd”, foi um certo alívio. Finalmente, depois de anos de esforço para reclaim nossa identidade, para valorizar o que insistiam que eram ofensas, o resto do mundo estava fazendo isso por nós. Por um breve momento, dava para se orgulhar disso mesmo. Afinal, era boa a sensação de se permitir gostar demais das coisas que você gostava, ser como você era, e as pessoas te acharem… legal! Era boa a sensação de usarem as palavras que originalmente eram pra te ofender, que você tinha passado anos tentando subverter, com um tom de elogio.

Só que, bem, muito mais rápido do que eu esperava (ah, a inocência), tudo isso se estilhaçou. Porque no meio disso tudo, a maioria das pessoas gostou um pouco demais disso, e transformou o emblema de “nerd” no novo emblema de “popular” ou o que quer que fosse o nome dado à galera que fazia mal a todo mundo que recorria à resistência de ser “nerd”. Porque a arrogância infantil (que eu também tinha), a arrogância que cresce quando tentam te botar pra baixo, tomou conta de tudo. Porque, de repente, ser “nerd” era um título a ser ganho, uma superioridade moral, um objetivo a ser atingido depois de pular por aros em fogo, recitar todos os vilões da Marvel em ordem cronológica de primeira aparição, dar sua opinião (mas a opinião certa) sobre Star Wars, passar em tempo recorde da segunda fase de um videogame obscuro, dar três pulinhos em uma perna só, girar no sentido anti-horário, falar “Beetlejuice” três vezes comendo farofa – era o troféu distribuído arbitrariamente de forma ritualística pelos novos gatekeepers do status quo, por um bando de gente que esqueceu como era ser deixado de fora da festa (ou que lembra muito bem, e mal podia esperar pelo prazer sádico de fazer o mesmo).

Hoje, amigas minhas estão sendo perseguidas internet afora por um bando de babacas que decidiram ser a patrulha do mundo nerd. Hoje, essas pessoas que não entenderam nada estão tentando tornar a vida de várias garotas um inferno, reproduzindo (e piorando) a misoginia, o ódio e a violência que criticavam. Hoje, tem gente por aí falando de “gamergate brasileiro”, e não sei se rio ou choro com o absurdo da situação.

No fim das contas, opto por repetir a maravilhosa provocação da Lorena: “Max Fischer salvou o latim; e você, o que fez? Estragou tudo. Parabéns.”