Adolescência: algumas reflexões

A insônia de hoje me levou a assistir a Beyond Clueless, um documentário (maravilhoso) sobre filmes adolescentes. Já terminei o filme faz quase uma hora, mas as reflexões (muito adolescentes) sobre adolescência não param na minha cabeça, e como fui incapaz de escrever um único post para o blog este mês (muito trabalho, muito sono) achei que isso servia.

I.

Minha adolescência foi – pelo menos em retrospecto – dividida em duas fases muito claras, separadas pela minha mudança de colégio no ensino médio. A primeira fase, na minha memória, foi marcada por muita diversão infantil, flertes dramáticos sem nenhuma intenção de resultado, desconforto e bullying. A segunda fase foi muito mais sexo, drogas e rock’n’roll (sem as drogas, nunca fui de drogas), mas igualmente traumática, mesmo que por outras razões.

Na primeira fase, eu via Dawson’s Creek quando estava mal porque os dramas da série era piores do que os meus e eu me sentia melhor. Na segunda, pulei de série adolescente para série adolescente, me vi em todas elas, e chorei com as duas primeiras temporadas de Skins tantas vezes que tenho quase medo de assistir hoje em dia.

É engraçado porque meus anos mais universitários, não delimitados exatamente pelo tempo que passei na faculdade (só me formei ano passado, com três semestres de atraso), mas pelo tempo em que a faculdade era o centro da minha rotina, são vagos demais na minha memória, apesar de recentes. Acho que foram melhores, acho que fizeram a ponte entre meu eu bem destruído do ensino médio e meu eu bem mais inteiro de agora, mas não sei exatamente como.

Minhas fotos adolescentes são todas ridículas, preparem-se.

Minhas fotos adolescentes são todas ridículas, preparem-se.

II.

Em algum momento, nessa segunda fase, tive medo de que a adolescência fosse o ponto alto da minha vida. Era tanta coisa acontecendo, tanta mudança interna e externa, tanta festa pra ir, tanta amizade pra fazer, tanto drama pra estimular, tanta fofoca pra ouvir, que eu sentia que talvez a partir dali as coisas fossem ficar… chatas. A maioria dos meus e-mails para a Verônica na época eram sobre o medo de crescer, de ser um adulto de filme de John Hughes (“when you grow up, your heart dies”), de parar de sentir tudo que eu sentia, de deixar pra trás a intensidade, de não querer arrancar meu coração no meio de um show do The Killers.

My heart didn’t die, ainda quero arrancá-lo no meio dos shows do The Killers, mas a intensidade diminuiu e, ó, que alívio. Sinto muito, Sofia de 16 anos, acho que você estava errada: tudo bem ser menos intensa, tudo bem não sentir as coisas daquele jeito. A adaptação é estranha, mas o resultado é bom. Te permite sentir outras coisas, te permite escolher teus focos.

O que me leva a:

III.

A melhor coisa da adolescência é que ela acaba, e isso não quer dizer que a adolescência é péssima. É só que a intensidade dela só funciona se for passageira, se existir uma luz no fim do túnel, se em algum momento se encontrar equilíbrio. Primeiros amores profundos só existem porque são os primeiros, e isso não quer dizer que são sempre piores que os seguintes, nem que são melhores. Eu não sobreviveria à adolescência se ela durasse a vida inteira, e não acho que sou exceção.

Citando Tavi citando John Hughes: “Adolescence. Not for all the sweaty, horrible stuff (…), but for the positive feelings and experiences which are only accentuated by the fact that your developing brain is taking them in for the first time. And even the sweaty, horrible stuff can be kind of great to revel in. Or, in the words of John Hughes, “At that age, it often feels just as good to feel bad as it does to feel good.””

Versão ~gótica~ na praia, lendo Meg Cabot. 2005.

Versão ~gótica~ na praia, lendo Meg Cabot. 2005.

IV.

Meu principal projeto criativo-profissional é voltado para adolescentes, mas, apesar de eu ouvir Taylor Swift e assistir Gossip Girl com frequência demais, eu não sou mais adolescente. Por mais recentes que sejam as memórias, elas já foram reviradas e remontadas demais na minha cabeça (e apagadas, apagadas aos montes). Será que ainda tenho propriedade para escrever para adolescentes, então?

Anedota #1: Em abril, fizemos um Google hangout para comemorar o aniversário da Capitolina, com várias colaboradoras respondendo perguntas das leitoras. Fomos perguntadas sobre o futuro da revista, quais são nossos sonhos pra ela, e fomos respondendo com nossa megalomania usual, até que a Carol falou que ela via, talvez, uma nova geração de Capitolinas – afinal, em cinco anos, em dez anos, estaremos bem distantes da adolescência já. Faz um mês dessa conversa e eu não consigo tirar isso da cabeça.

Anedota #2: Estava escrevendo sobre relacionamentos românticos/sexuais com BFFs pra Capitolina e precisei falar sobre as consequências do fim do relacionamento. Fui escrever “se o relacionamento acabar”, me dei conta que tenho certeza de que iria acabar, escrevi “quando o relacionamento acabar”, me achei pessimista, fiquei em dúvida, não lembro o que acabei deixando no texto. Coroou, para mim, meu status de pessoa velha ranzinza cínica que não acredita mais no amor adolescente.

Como posso, então, escrever o que escrevo, fazer o que faço? Como vou saber quando passar dos limites, quando chegar ao ponto em que estou soando condescendente sem perceber, em que meus únicos conselhos começam com “quando eu tinha a sua idade” e acabam com “não importa, vai passar”? Será que em algum momento vou esquecer que, mesmo que vá passar – claro que vai (vide III) –, isso não significa que não importa? Que coisas obviamente importam se no momento elas importam, e essa importância ser passageira não a diminui? Vocês me avisam quando eu estiver só fazendo papel de ridícula tentando falar com adolescentes e falhando miseravelmente?

V.

Recentemente fui parar, por uma série de acasos, na casa de uma garota que estudou comigo naquela primeira fase, por um ano. Na minha memória, não nos gostávamos, ela não me tratava bem. Hoje em dia, ela é outra pessoa. Eu também sou. Na noite em questão, me senti mal, me senti exposta a um passado que ainda me dói (acho que não passa assim tão completamente, afinal). Principalmente, me senti mal por ter que confrontar a mentira das narrativas adolescentes dos underdogs: a galera popular do seu colégio não vai passar a vida infeliz, enquanto você e seus amigos excluídos se tornam poderosos, porque não é assim que a vida funciona – e que bom que não é assim (digo agora, racionalmente, mesmo que antes eu tenha feito birra e dito que não é justo).

Na noite em questão, talvez ela tenha estranhado tanto o fato de eu estar lá, loira, de salto, batom, arco de cabelo brilhante, quanto eu estranhei ela me receber relaxada, de short velho, regata, cigarro na mão. Minha memória dela é cheia de cor de rosa e cachos cuidadosamente enrolados, e a memória que ela tem de mim provavelmente envolve jeans, all star, espinhas e aparelho nos dentes. Ela mudou e eu mudei e nossas vidas acabaram se tornando suficientemente semelhantes pra eu acabar jantando na casa dela assim meio sem querer (só descobrindo que a casa era dela quando eu toquei o interfone e ela abriu a porta), e talvez nossas vidas sempre tenham sido muito parecidas e só eu não tenha percebido porque na adolescência admitir semelhança com gente que disseram ser diferente de você não pega muito bem.

Parte da razão de eu ter mudado de colégio quando mudei é que eu me sentia outra pessoa, e todo mundo que estudava comigo desde os sete anos não conseguia me ver como quem eu era agora. Eu queria ter o direito de mudar, porque as leis sociais da adolescência são rígidas demais e aplicadas por métodos sutis e invisíveis muito difíceis de burlar, cada pequena transformação fotografada sob um microscópio e projetada na sua frente. Só hoje, agora, anos depois, conversando sobre o assunto com a Clara, entendi mesmo que eu também nunca dei a nenhuma dessas pessoas o direito de mudar.

15 anos, dividindo uma casa em Teresópolis com sei-lá-quantos amigos, de chinelo e flanela.  Filed under: coisas que só meu eu adolescente faria.

15 anos, dividindo uma casa em Teresópolis com sei-lá-quantos amigos, de chinelo e flanela. Filed under: coisas que só meu eu adolescente faria.

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