“Uma coisa ao mesmo tempo muito corajosa e muito idiota”: relendo Harry Potter e a Pedra Filosofal

Por alguma razão – que agora já me escapa –, eu e o Paulo (aka o namorado, que até agora não tinha nome aqui no blog) começamos a conversar sobre Harry Potter. Eu fui uma criança/adolescente viciada na série, lendo e relendo tudo um milhão de vezes, enquanto ele só leu até a metade do quinto livro. Papo vai, papo vem, decidimos reler tudo, juntos. Temos o hábito de ver/rever coisas juntos (estamos na quarta temporada de Gossip Girl, por exemplo, e logo começaremos a terceira de White Collar), mas é a primeira vez que tentamos uma leitura conjunta. Desde o começo, decidi que ia relatar a experiência online, porque gosto de oversharing e porque, modéstia à parte, somos ótimos comentaristas de cultura pop (ainda sonho com um futuro vlog sobre Gossip Girl, honestamente).

Mas a leitura conjunta acabou descompassada: ele não tem os livros, e só tenho um exemplar do primeiro e do segundo, então ele leu o primeiro, me repassou, o segundo, me repassou, e agora está no final do terceiro e prometeu me esperar para o quarto, que é quando os livros começam a ficar maiores. Não só isso, como lemos mais rápido do que escrevemos, especialmente porque não sabíamos bem o formato pra esses posts – ler tudo antes e fazer posts por temas depois? fazer vídeos? um post aqui e um no blog dele, cada um com seus comentarios e opiniões? –, mas acabamos nos decidindo por um post por livro, em formato de conversa (quando nos decidimos, abri o gravador do iPhone pra registrar nosso bate-papo, que já rolava há mais de uma hora, e a gravação tem 1h30).

Começamos aqui, então, com nossa discussão de Harry Potter e a Pedra Filosofal. Aviso que o post contém spoilers, inclusive alguns do resto da série, e que provavelmente não fará muito sentido se você não tiver lido o livro. O título do post é de uma citação direta do livro, que acho que poderia ser o título alternativo da série: “Harry então fez uma coisa que era ao mesmo tempo muito corajosa e muito idiota”. Acabamos falando um pouco sobre Harry Potter e a Câmara Secreta também, porque o Paulo tinha acabado de relê-lo. Encorajo uma releitura, e comentários aos montes!

O LIVRO

Primeiro livro da série, é a apresentação do protagonista Harry Potter, jovem bruxo de 11 anos que cresceu como trouxa (não bruxo) mas é chamado, no dia de seu aniversário, para a enorme escola de bruxaria Hogwarts, e descobre que é um herói famoso no mundo mágico, por ter derrotado Voldemort, o grande bruxo das trevas, ainda bebê.

Lemos a primeira edição brasileira, de 2000, com uma tradução da Lia Wyler que, na pressa, parece não ter passado por copidesque. É uma pequena raridade que eu guardo com carinho – o título ainda é uma fonte com serifa padrão, e não o logo oficial, e a tradução inclui uma troca de gênero da Professora Sprout, e o Draco Malfoy se chamando Drago Malfoy.

Casal compenetrado, cada um com seu Harry Potter. Via Instagram.

Casal compenetrado, cada um com seu Harry Potter. Via Instagram.

OS COMENTARISTAS

Sofia: Comecei a ler assim que o livro saiu no Brasil, viciei imediatamente, e meses depois abri a primeira caixa do segundo livro (uma noite antes do lançamento nas livrarias) na Malasartes, livraria infantil do shopping da Gávea. Prossegui viciada a adolescência inteira, acumulei roupas e acessórios, DVDs, livros em algumas línguas, participei em fóruns de RPG, escrevi e li fanfics, fiz amizades pelo fandom, e atualizei meu email sem parar no lançamento do Pottermore. Há uns anos o ânimo deu uma amenizada, e Harry Potter não é a primeira coisa que me ocorre quando penso em coisas que gosto, mas ainda tem um espaço enorme e especial no meu coração.

Paulo: Leu até a metade do quinto livro (que é mesmo o mais chato, na minha opinião pessoal), e não lia desde então. Não lembrava de muita coisa, e me ouviu contar rapidamente todo o enredo principal dos livros antes de decidirmos, finalmente, reler todos de uma vez. Não vem do mesmo background de vício e fangirling que eu, então consegue trazer um olhar mais novo à conversa.

A CONVERSA

Sobre relações internacionais e desequilíbrio de poder

[Antes da parte que gravamos, que eu transcrevo a seguir, estávamos nos colocando a questão básica de: Voldemort, enquanto no poder, dominou só o Reino Unido ou o mundo inteiro? Se só o Reino Unido, por que não houve intervenção internacional?]

P: Sabe por que eu acho que existe inação a nível internacional? A galera sabe que os pró-Voldemort precisam do Voldemort pra existir. Só que os pró-Voldemort têm uma influência tão grande que eles fazem a inação acontecer a nível internacional. Por exemplo, quem atua no Ministério da Magia? O pai do Draco.

S: Entendi. Você acha que tem então uma relação de que o apoio a ele basta para o controle político…

P: Os pró-Voldemort estão muito bem situados a nível internacional.

S: Sim, eles têm muito controle político. Eles não têm controle do exército, mas eles têm o controle político para impedir…

P: Eles têm o poder de decision making!

S: Hmm, isso é uma interpretação interessante, eu gostei!

P: Os pró-Voldemort, a nível internacional, tipo, na Albânia, por exemplo, tem um cara no poder pró-Voldemort, ele provavelmente tá dizendo “Não, o Voldemort? Ele não tá aqui, fiquem tranquilos!”, e enquanto isso ele tá deixando o Voldemort crescer. Isso é, assim, uma coisa nível teoria da conspiração bizarra.

S: Mas faz sentido! Especialmente se a população bruxa for pequena. E aí entra isso, né, eu não sei o tamanho da população bruxa.

P: Então, tipo, se você pensar que existem vários Lucius Malfoy em outros países, atuando de forma que o Voldemort se fortaleça, e “congelando” a ação. Eles são como um Conselho de Segurança, sacou?

S: Só que é um Conselho de Segurança dominado pela galera pró-Voldemort, é tipo um Conselho de Segurança nazista.

P: Exatamente, que impede a ação contra ele.

S: Entendi, permitindo que ele cresça e ganhe poder, e aí quando ele chegar a um certo ponto essa galera pode se voltar para um ataque mais direto de decision-making. Faz bastante sentido! É bem conspiratório, mas eu gostei!

Teresa, minha irmã que entrou na conversa: Contraponto?

S: Contraponto.

T: Isso não funciona na lógica e na estratégia do Voldemort. Ele politicamente não faria uma estratégia que se baseia nos aliados dele fingirem que eles não têm poder. É contrário à persona dele, ao jeito que ele forma o poder dele.

P: Mas isso pode ser uma adoção de estratégia nova porque o Voldemort tá numa situação que ele não esperava estar.

T: Sim, mas a partir do contexto que apresenta no livro da situação que ele tá…

S: É que a gente ainda não teve muita exposição a ele como indivíduo no livro, mas faz sentido.

P: Como ele tá enfraquecido, ele pode ter se reunido com os accolites dele…

S: Ah, mas eu não tô pensando nele enfraquecido! Eu tô pensando nisso enquanto ele tava no poder.

P: Não, eu tô pensando nele no primeiro livro.

S: Ah, eu tava pensando antes do Harry “matar” ele. Como é que funcionava esse controle político? Como é que deixaram um reino de terror de dez anos na Inglaterra?

P: Mas eu acho que são duas estratégias.

T: Mas é que mesmo na volta, essa estratégia é estranha.

S: Não, na volta a estratégia é de manter o medo mas como se todo mundo pudesse ficar tranquilo. A estratégia é um pouco essa.

T: Mas os aliados dele não chegam a ficar tipo “Que é isso, tio Voldy tá com nada”.

S: Existe um pouco isso sim. A galera, tipo o Lucius Malfoy, logo que o Voldemort sumiu, diz “aaaaah fui enfeitiçado, Voldy tá com nada não, hahahaha”. Mas ele tá o tempo todo trabalhando politicamente pró-valores Voldemort.

P: Ele tá atuando politicamente dos dois lados.

S: É, e dando pra galera a impressão de que ele não é pró-Voldemort. E deve existir uma galera no poder tipo o Lucius.

T: Mas continuo achando anti-característico.

S: Não é característico do Voldemort, é verdade, mas é condizente com os seguidores dele. Acho que pra volta faz sentido, acho que é como os seguidores dele agiram mesmo.

T: É, mas quando ele volta, ele fica puto, ele acha ofensivo a galera ter fingido que não apoiava ele.

S: E isso entra naquela questão: o poder do Voldemort tem muito a ver com o poder dele como indivíduo, mais do que com a ideologia política.

T: É uma coisa doida, né, porque eles são bruxos. Para a gente, não existe uma pessoa mais “superpoderosa” que as outras.

S: Por isso ele é um perigo internacional de dimensões limitadas, porque não dá para ele estar em todos os países destruindo tudo ao mesmo tempo. Se for só o exército dele, tem tanto poder quanto um exército “do bem”, aí dane-se.

T: Ele, mesmo “desarmado”, contra outro bruxo, é mais até difícil de matar.

S: Ele contra 15 bruxos com mais “armas” do que ele ainda pode vencer esses 15 bruxos. É uma questão de poder individual. Então acho que a Teco tá certa, que essa estratégia é a que rolou pra volta, mas não combina com a estratégia de liderança dele enquanto ele estava no poder.

P: Tá, mas qual é a estratégia de liderança dele?

S: Ele é um psicopata megalomaníaco. Não é claro como é o cenário do reino de terror dele, a galera tem medo de falar e tal, mas é uma vibe meio Holocausto, só que em que o Hitler, como indivíduo, tem poder. Não só como líder simbólico ou estratégico, mas ele matando pessoas.

P: Sim, tipo skill absurdo matando geral.

S: Então o cenário é meio esse e a galera tem medo dele individualmente, não só medo dos seguidores. O medo é mais dele do que da ideologia, tanto que quando ele cai a ideologia se dissipa. Aí a estratégia dele é mais de “tenham medo de mim, indivíduo”, não de disseminar a ideologia dele pelo mundo, ou de “tenham medo da minha nação/do meu grupo”. É “tenham medo de mim, eu, Voldemort, que sou mais mau e poderoso e fodão que todo mundo”, é muito megalomaníaco egocêntrico pirado.

P: Mas ele tem um exército?

S: Ele cria, ele tem os comensais da morte. São bruxos do mal. Mas não são um exército treinado, são bruxos que são a favor dele. Eles lutam pelo Voldemort, mas eles não têm um general e um exército organizado com estratégia. É individual, o Voldemort dá tarefas tipo “você, mata essa galera estratégica” ou “vocês aí, se juntem e toquem o terror”. Eles são mais um grupo terrorista do que um exército organizado.

P: A cadeia de comando é centrada numa figura só. O que é um erro absurdo dele, né?

S: Sim, J.K. Rowling não estudou RI, basicamente.

P: Sabe que Al Qaeda em árabe quer dizer “a rede”, né? O grupo do Voldemort seria meio uma forma de Al Qaeda. Aí os comensais não são uma força transnacional?

S: São, mas eles não têm poder o suficiente para tomar nada. Por que ninguém interfere? Porque essa teoria de que os comensais tão impedindo a ação dos governos faz sentido pra volta, mas não pro reino de poder, porque ele não apoiaria a galera fazer isso. Porque ele quer espalhar terror, ele não quer parecer menor.

P: E se ele, a partir de um ponto de poder que já dá pra ele aterrorizar a galera internacionalmente, mandar um comensal ir pra um governo X, e paralizar a ação?

S: Mas o negócio é que como todos os bruxos têm poder, os comensais têm o mesmo “armamento” que os civis no mundo bruxo. Terrorista, no nosso mundo, têm armamento que nós não temos. Mas no mundo bruxo o armamento dos comensais é o mesmo dos civis. Num órgão do governo, a galera toda provavelmente vai ter o mesmo poder que eles têm. Eles não têm a vantagem do desequilíbrio de poder.

P: Só o Voldemort contra qualquer um tem esse desequilíbrio.

S: Tipo, um comensal contra eu e você, se bruxos, talvez tenha mais poder. Mas um comensal contra um cara do governo, que tenha um mega treinamento em magia, o nível de poder é o mesmo.

P: O comensal não passa por treinamento? Ele não é um soldado, é só um follower?

S: Pelo que parece, não. Ele é um seguidor que obedece. Talvez tenha um treinamento que a gente não saiba, mas em nenhum momento acho que dá a entender que exista um treinamento estratégico militar dos comensais. Há um treinamento de culto, de iniciação, testar lealdade, etc., mas não existe, pelo menos de nenhuma forma clara, uma organização estratégica militar. E a questão é que no nosso mundo existe a questão do uso da força, mas no mundo dos bruxos todo mundo tem a mesma arma, só skills diferentes do uso daquela arma, mas num nível padrão essa diferença de skill não é gritante.

P: O Voldemort, na época de poder, tentou um ataque à Inglaterra como nação?

S: Não sei.

P: Porque se ele tiver feito isso, isso já o caracteriza como uma ameaça a nível internacional.

S: Ele atacou o Ministério da Magia, mas não sei se ele atacou, tipo, a rainha. Acho que ele não tá nem aí pra esse sistema. Mas acho que ele inclusive dominou o Ministério da Magia, em algum momento, que ele teve poder político.

P: Então, se ele fez isso ele já angaria followers por todo o mundo.

S: Sim, mas os followers não têm poder de dominar o mundo sozinhos. E se o mundo não é dominado, por que os outros países não interferem? Não tem R2P, não tem nada disso! É um sistema como o nosso, tem estado-nação, algum nível de instituição supranacional (existe Copa de Quadribol, por exemplo)…

P: Será que é a primeira grande ameaça?

S: Mas foram dez anos! Ou oito, ou sei lá. De reino de terror!

P: E da Inglaterra, né? É uma potência.

S: A não ser que a política em Harry Potter não seja eurocêntrica, mas pelo que a gente compreende o poder é eurocêntrico.

P: Tá, uma ideia: como eles se comunicam? Cartas enviadas por corujas, né?

S: Sim, mas eles têm poder de locomoção por pó de flu, aparatando, chave de portal, vassouras. Várias mecanismos de “teletransporte”.

P: Tava pensando num bloqueio continental de comunicação.

S: Mas um bloqueio por dez anos ia ser notado! É tempo demais pra ninguém interferir! E não fica entendido que ele dominou o mundo, só que ele dominou a Inglaterra. E nesse momento como é o mundo trouxa? Como se passou dez anos com um reino de terror num pedaço da Inglaterra, e não no outro? Como a política tradicional não interferiu? Mesmo que não tenha o mesmo tipo de poder, tem mecanismos internacionais de defesa? Só que pra ativar esses mecanismos, aí os trouxas teriam que saber da existência dos bruxos. Mas como eles conseguem manter undercover num mesmo país um reino de terror quando existe um sistema tradicional de política.

P: Eu não consigo sacar muito bem como funciona isso de mundo bruxo x mundo trouxa.

S: Eles se escondem, né? Essa coisa de não poder criar dragão é por causa disso. Existe um certo nível da inserção dos bruxos no mundo trouxa que é aquilo que a gente falou, que trouxas interpretam o estranho de forma racional e não veem como sobrenatural. Então se tudo tá pacífico, dá pra ter um vizinho bruxo na maior.

P: E se o Voldemort fizesse aquele feitiço do esquecimento em quem pode agir contra ele? Ou matasse todas essas pessoas?

S: Mas eu não acho que o Voldemort viajou pelo mundo matando todo mundo.

P: Difícil.

S: Acho que não tem muito jeito, acho só que a gente sabe RI e a J.K. Rowling não.

 

Sobre o sistema de ensino

S: É o seguinte: ser bruxo é uma condição essencial biológica, né, você tem o talento, você tem magia, tipo o Harry. Mesmo que você nasça trouxa, alguém te avisa, quando você faz onze anos (por alguma razão totalmente arbitrária) que você é um bruxo.

P: O que mais uma vez corrobora uma tese de controle Big Brother dos bruxos.

S: A galera que nasce no mundo bruxo não estuda até os 11 anos! Eles devem ser homeschooled, né, porque eles sabem ler e tal. Eles começam escola só no ginásio! Não tem primário! Só que se todo mundo é homeschooled, como você faz se seu pai é analfabeto, por exemplo? Você entra na escola so aos 11 anos e é esperado que você faça deveres de casa, mas você não foi homeschooled porque seu pai é analfabeto? E, tipo, a galera pobre tem algum auxílio? Tem bolsa? Tem cota? Se você não se forma na escola você não pode exercer magia, né? Você não pode exercer magia fora do colégio, se você é expulso você perde sua varinha.

P: É, tipo o Hagrid.

S: Ou seja, seu direito de exercer magia é condicionado a ser formado como bruxo.

P: Como se fosse uma OAB.

S: Você só pode exercer magia como maior de idade, formado no colégio.

P: Mas o Rony usa magia em casa, por exemplo. Dentro do território bruxo.

S: É, mas sem uma varinha, né?

P: Tá, mas ele pode trabalhar, juntar uma grana, comprar uma varinha.

S: Mas não sei se pode comprar varinha se não for aprender magia oficialmente. Não sei o regulamento.

P: Mas no segundo, o Filch tá fazendo aquele curso de correspondência. Ele nasceu no mundo dos bruxos, mas não tem magia.

S: Ele tá tentando aprender, mas vai ser ineficiente. Ele não tem o elemento biológico talentoso primário. Ele deve conseguir aprender, por exemplo, a fazer poção. Ele deve conseguir trabalhar com bruxaria, por meios que não envolvem a magia dele canalizada pela varinha.

P: Porque a magia é uma coisa natural, tipo a Força.

S: É, tanto que o Harry fazia magicamente várias coisas, antes de aprender. E, tipo, a escolha da Hermione para Hogwarts é porque ela é bruxa, né, mesmo nascendo trouxa. Eles não devem escolher uma galera aleatoriamente pra ser bruxa, a galera deve nascer bruxa.

P: Haveria, então, um monopólio de grandes écoles.

S: Sim! Hogwarts aparentemente é a única escola na Inglaterra. Existe Beauxbatons, que é francesa, e Durmstrang, que é a alemã. Existe uma única escola por nação.

P: É meio totalitário, né.

S: Pois é, e mesmo assim eles estão lutando contra um cara ainda mais nazista. Na verdade mais ou menos, né. O Voldemort tem um ideal nazista de pureza de sangue, mas a proposta política dele é de uma ditadura mas com estrutura institucional anárquica. Ele quer mandar em tudo, mas sem instituição. A proposta dele não é de tomar as instituições pra ele, só derrubar tudo.

P: É, não existe um arranjo institucional abaixo dele, né. E os bruxos, né, estado totalitário total. Existe um monopólio do ensino, existe um único jornal, o Profeta Diário.

S: Ah, depois vai surgir um jornal da contracultura, O Pasquim, que nem o brasileiro, mas deve ser uma escolha da tradução, não sei o nome original.

P: Mas quando você pensa, é um estado com instituições totalitárias. Uma grande escola, um banco, uma loja de varinha.

S: Sim, ele é o único que produz varinhas, que é o elemento condutor de mágica principal. Então tudo passa por ele. Todas as pessoas, para ter o direito de exercer magia, passam, quando crianças, pelo Olivaras. E cada pessoa tem uma varinha! É muito pré-determinado tudo.

P: É, é uma coisa de controle. Mas em relação à varinha não acho tão surpreendente. O que me leva a crer que podem existir outros fabricantes de varinhas, só que eles são reprimidos para que só haja um, que é totalmente mancomunado com o governo, ligado ao banco, à escola, que produz ligado aos alunos de Hogwarts. Não precisa de excesso, não precisa de estoque.

S: Mas existe estoque, né. A varinha do Harry foi feita junta com a do Voldemort, por exemplo. Pelo menos eu tenho essa impressão.

P: Ele tem o melhor negócio, né. É bem necessário.

S: É, é o bem mais necessário. Se você é bruxo, você precisa de uma varinha. Numa crise econômica, o Olivaras não quebra.

P: É muito bizarro quando você para para pensar que existe uma conexão entre todas essas esferas.

S: E se você é expulso, tipo o Hagrid, você perde sua varinha e o direito de comprar outra, tanto que ele mente para o Olivaras e diz que não tem mais a dele. E é bizarro porque o risco de expulsão é muito real, no primeiro livro o tempo todo tem ameaças de expulsão. Você comete uma pequena infração no colégio aos onze anos e aí é legalmente impedido de exercer magia pelo resto da vida.

P: É uma coisa bizarra de maioridade penal.

S: Você não pode procurar vaga em outra escola!

P: Você vira um outcast.

S: Outra coisa: todos os bruxos têm acesso à escola?

P: Hogwarts é uma escola universal para toda a população britânica?

S: Não só eles são chamados, mas têm acesso mesmo? Vão chamar o Harry quando ele não responde. Você acha que é especial por ser o Harry, ou se alguém recebe a carta e não responde eles vão lá checar? E Hogwarts é paga?

P: Acho que não. Se Hogwarts fosse paga, existira alguma menção quando as famílias estão no Beco Diagonal, em Gringotes, e tal. E isso de buscarem o Harry, acho que não é só por ele ser famoso, ou pelo vínculo pessoal. O Hagrid fala que eles viram que as cartas não foram respondidas, o que me leva a crer que isso é uma reação geral, que alguém se pergunta o que acontece.

S: Nem que seja um representante aleatório da escola ou do ministério.

P: E Hogwarts é a única opção? Por que um aluno da Grã-Bretanha não pode ir pra Beauxbatons? Não existe intercâmbio?

S: Acho que só se você for imigrante.

P: Mas será que os estados não se comunicam?

S: Eles se comunicam sim, tem a Copa de Quadribol e o Torneio Tribruxo.

P: Mas se for Realismo mesmo?

S: Mas aí não teria copa, não teria intercâmbio cultural de escolas tipo no Torneio.

P: Mas aí o torneio seria uma forma de mostrar quem é o melhor. Só que tem toda uma premissa de integração, né? Então é só bizarro mesmo.

 

Sobre o egoísmo heroico do Harry

S: O Harry e o Rony são muito escrotos com a Hermione o tempo inteiro. Mesmo quando ela é chata, é de um jeito que faz sentido, é porque eles são egoístas, fazem coisas bestas porque querem aventura, e colocando em risco o coletivo da casa.

P: Rola um sistema de compensação negativa: a Hermione ganha pontos porque é muito inteligente, e os dois manés perdem.

S: É, o Neville quando vai impedir eles de irem procurar a pedra filosofal é por isso também, é tipo “vocês vão se meter em apuros e ferrar com a Grifinória”.

P: Aí ele ganha os dez pontos que fazem toda a diferença!

S: O Harry faz toda uma pose de ligar pro coletivo porque ele quer ganhar o campeonato de Quadribol, mas é total egoísta, né, pela vitória própria.

P: Todo mundo sabe disso, né, Harry Potter é uma total egotrip. Em praticamente todos os níveis, tipo ele ser apanhador. É sempre ele, ele, ele.

S: E ele acha que tá fazendo bem pra coletividade, mas é de um jeito corajoso mas idiota. Ele acha que tá salvando o mundo, mas existem jeitos melhores para o coletivo, e ele sempre toma a decisão mais egoísta, mais “vou me botar em risco pra ser um mártir poderoso”. E eu entendo que deve ser fucked up, né, ele passa onze anos de uma vida e aí de repente dizem pra ele “oi, você é um mártir poderoso adorado, você single-handedly destruiu o bruxo mais poderoso do mundo”. Aí óbvio que você cria na sua cabeça que voce é.

P: No primeiro eu dou um desconto, porque ele não tem noção.

S: É, ele pira, né. Rola a piração ali no espelho, e tal.

P: Mas no segundo ele já é mais racional. Ele já começa a pensar tipo “porra, será que vou no Dumbledore e conto?”, só que ele fica mantendo tudo aquilo pra ele mesmo. Entendo que se ele se abrir, ele pode tornar outros cúmplices, colocando-os em risco, mas se ele só agir sozinho ele também ta botando em risco uma galera. Então entendo o dilema.

S: Só que abrir pro Dumbledore é mais esperto.

P: Sim, o Dumbledore vai saber lidar muito melhor.

S: E eu entendo um pouco ele, tipo, pensa só: você é um órfão, você mora com uma família abusiva, violenta, cruel, você tem certeza que sua vida não vai dar em nada. No primeiro livro não tem menção a coisas como “quando eu um dia sair dessa casa”.

P: Ele não tem perspectiva nenhuma. É deprimente. É triste. Vida de merda pra sempre.

S: Aí alguém te busca, do nada, diz que existe um mundo mágico, e que nesse mundo mágico você é um herói –

P: Você é a celebridade –

S: Você é um mártir, a pessoa mais poderosa que a gente já conheceu, um ícone da coragem, da bondade e da liderança. Porque, quando você era recém-nascido, você derrotou single-handedly o bruxo mais poderoso do mundo e salvou o planeta. Aí você surta.

P: Total, você perde a noção da realidade. A vida dele muda de referencial.

S: Total. E eu acho que ele não se dá conta que tá fazendo uma coisa egoísta. Acho que ele tá partindo do pressuposto que ele é essa pessoa que todo mundo diz que ele é.

P: Que ele é o chosen one então ele tem que fazer isso.

S: Que é o jeito correto dele agir. Acho que ele compreende que isso é esperado dele. Que ele pensa “eu posso contar pro Dumbledore, mas eu posso fazer isso sozinho porque é o que esperam de mim”.

P: Eu vejo de maneira semelhante, mas não que é o que esperam dele. Eu penso que é uma parada muito irresponsável de “mermão, eu consegui uma vez, portanto, eu consigo outra”.

S: Pois é, no primeiro livro ele consegue de novo. Aí no segundo de novo. Cada vez que ele consegue, piora.

P: Não é tipo “esperam de mim”, é mais que “já que eu consegui uma vez…”

S: Para mim é um conjunto das duas coisas: tanto uma sensação de falsa segurança porque ele conseguiu já, quanto o fato de que, como todo mundo sabe que ele conseguiu já, esperam que ele consiga de novo.

P: Para mim, ele não gosta dessa fama, ele não tá interessado no que pensam dele, pelo menos nos dois primeiros livros.

S: Mas eu acho que ele é alguém que gosta muito de dizer que não gosta de atenção, só que que gosta muito de chamar a atenção dos outros. O que é natural quando você passa uma vida sem perspectiva e de repente todo mundo te ama!

P: Ele tem cara de ser mó leonino.

S: Óbvio! Ele é Grifinória. E ele é mesmo leonino. Hahahaha. E eu não acho que ele faz isso conscientemente, mas é uma reação emocional natural. Pessoas que saem de situações de muito abuso, quando chegam em um ambiente em que são amadas, procuram reproduzir o que identificam como a razão de amarem elas. Então ele chega em Hogwarts e as pessoas amam ele por ser um herói, aí a tendência é que ele repita o comportamento heroico, que ele sabe que faz com que as pessoas gostem dele.

P: Porque em Hogwarts é tudo oposto ao que ele tinha anteriormente.

S: Sim, e ele quer se manter nesse status de amor/acolhimento/reconhecimento. Não acho que é consciente, mas é a reação emocional dele. Tipo “imagina se esse cara ganha, sendo que eu já derrotei ele antes? Se ele ganhar, todo mundo vai duvidar de mim”.

P: Eu penso em duas paradas: uma essa de “venci uma vez, então faz sentido eu vencer de novo”. Mas a outra é que eu não vejo esse lance dele ser um herói, eu vejo ele mais como sendo uma vítima 24h. O heroísmo dele é um fardo que ele carrega o tempo inteiro.

S: É um heroísmo de caráter martírico.

P: Vide o perigo que ronda o tempo inteiro onde ele está. Ele fica o tempo todo “cacete, tô sendo perseguido, preciso resolver isso logo porque todo dia o Voldemort tá por aí atrás de mim”. Porque ele não acabou com a ameaça, ele não é mesmo tanto um herói, ele sobreviveu, mas não acabou com a ameaça. Ele só interrompeu o reino de terror.

S: Mas é visto como uma vitória. A percepção política e cultural é de que ele é um herói.

P: Claro, faz todo sentido, ele também seria um herói para mim.

S: Acho que o próprio Harry se questiona sobre isso, sobre ser um herói mesmo, como esperam dele.

P: “Eu fui tão inútil ali quanto um cone, não ia mudar nada.” E o final do primeiro é uma grande cagada, né, como eles chegam no Quirrell e tal. Mas acho que, especialmente no final do segundo, para o Harry é uma coisa de “esse problema tá comigo, agora tenho que resolver”, e não porque esperam isso dele por ele ser o herói fodão, mas porque tudo segue ele, e só ele tem a chave para acabar com isso, e ele adoraria que fosse outra pessoa.

S: Mas na real ele não adoraria, senão ele pediria ajuda. Esse é o papel que impõem a ele, o papel social que ele toma para ele, e segundo o qual ele age. Ele acha que é o papel dele, e que não deveria ser de outra pessoa.

 

Sobre Dumbledore ser um manipulador horrível

P: Lembrei de uma parada que me incomodou muito: a leniência do Dumbledore.

S: O Dumbledore é maneiro, mas irresponsável para cacete e um completo imbecil.

P: Sabe o que acho que é o pior? Não o Harry querer resolver as paradas. É o Dumbledore saber de tudo e não fazer nada.

S: No primeiro livro o próprio Harry chega a essa conclusão! Rola uma conversa do Harry com o Dumbledore em que ele chega à conclusão de que o Dumbledore deu para ele as ferramentas para ele resolver sozinho. Que coisa imbecil! Se você sabe que tem um cara transportando o mal encarnado na cabeça dele, lida com isso, não dá as ferramentas para um garoto de 11 anos lidar.

P: Tudo bem, quando eu tinha 11 ou 12 anos, eu não teria noção da gravidade da Câmara Secreta. Digo, teria noção da gravidade de ter uma serpente, e de ser aberta pelo herdeiro do Slytherin. Mas, lendo agora, sério: o Harry entra na Câmara Secreta, milhões de quilômetros abaixo de Hogwarts. E o professor explica que vários bruxos tentaram descobrir a entrada, escavaram, e não encontraram nada, e tudo bem, plausível, mas, como a fênix entra na Câmara?

S: É porque alguém tem esse conhecimento, né, e obviamente é o Dumbledore. Que sabia com certeza quem tinha aberto da outra vez.

P: E ele permite a existência de uma serpente que coloca em risco a vida dos alunos!

S: Ele não tem nenhuma noção! No primeiro já fica claro isso. Até o último momento, ele tava achando que tudo bem deixar na mão de uma criança de 11 anos. O espelho, a capa… o Dumbledore meio vai dando pro Harry as pistas.

P: Parece que o Dumbledore é meio duplo agente, não parece? Bota o Harry em perigo, mas depois salva ele.

S: O Dumbledore é meio patológico, né, de um jeito bem ruim. Ele me dá algumas sensações: 1. a política de ensino de Hogwarts é total de “vamos botar vocês em risco e aí vocês se viram e agora vocês sabem”.

P: Vide a matéria mais importante ter uma rotatividade enorme de professores.

S: E todo o método de ensino deles! No primeiro livro a punição deles é ir pra Floresta Proibida procurar um ser que tá matando unicórnios, mesmo que matar unicórnios seja quase impossível, o que significa que é o ser mais do mal possível que pode estar na floresta.

P: Mas aí é que tá: acho que isso é exclusivo pro Harry, porque ele tava envolvido. A punição foi essa porque ele fazia parte do grupo, não acho que o Fred e o Jorge, por exemplo, são punidos indo pra Floresta Proibida.

S: Mas quem determina essa punição é a escola. Não é um mal que seguiu o Harry.

P: É, mas aí tem participação direta do Dumbledore, ele que escolhe isso aí. Ele quer ensinar pela pior experiência possível. É tipo coisa de treinamento de BOPE.

S: E o Dumbledore tem uma coisa patológica que funciona bem com o Harry. Enquanto o Harry é alguém que sofreu um vácuo de afeto e necessita de apoio, então é a vítima perfeita, o Dumbledore é um manipulador de primeira. Então o que o Dumbledore faz é que ele põe o Harry em perigo, salva ele, e depois fala pro Harry tipo “você é tão poderoso, você foi tão bem, deixa eu te botar em perigo de novo”. Ele tem um ciclo de manipulação com o Harry de manter o Harry admirando ele, enquanto ele bota o Harry em perigo para poder salvá-lo.

P: O Harry podia ter morrido nessas situações!

S: Sim, mas o Dumbledore confia que será capaz de salvar. Da mesma forma que o Harry confia em si próprio pra lidar sozinho, o Dumbledore confia em si próprio pra salvar o Harry no final. Aí o Harry vai ficar tipo “wow, o Dumbledore me ajudou” e o Dumbledore vai dizer “não, Harry, você é um gênio”. Ele faz isso cada vez mais. Eu acho que o Dumbledore tem uma crença quase religiosa no Harry – ele acredita que o Harry é o chosen one. Ele acredita piamente nisso, ele tem uma fé real nesse poder do Harry.

P: Então ele elege o Harry como o resolvedor dos problemas de Hogwarts.

S: Os problemas que têm diretamente a ver com o Harry, né, os problemas do Voldemort.

P: Mas se ele tem uma fé tão cega, por que ele ajudaria? Por que ele não deixaria o Harry tentar se salvar sozinho?

S: Porque ele quer garantir. Acho que ele quer provar pra ele mesmo que o Harry salva tudo. E acho que ele acredita que é o dever dele levar o Harry a atingir o total potencial de “escolhido”.

P: Ele é muito kamikaze em fazer isso!

S: Acho que é uma coisa quase fanática religiosa, que ele quer levar o Harry ao ponto máximo. Acho que ele acredita que a situação não passará dos limites porque o Harry conseguirá controlar antes. É quase um teste da própria fé, não só do Harry, mas da crença dele. Acho que ele está pedindo milagres.

P: É, ele quer ver o milagre acontecer. Ele força situações pra forçar o milagre.

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E aí? O que acham sobre os pontos que levantamos? Querem comentar o livro com a gente? Querem testar teorias de RI no mundo mágico de Harry Potter? Querem reclamar de como a gente fala “tipo” e “né” e “galera” e “parada” o tempo todo? Os comentários estão aí para isso!