Sobre amor, relacionamentos e um toque de cafonice

Hoje meu relacionamento com o namorado (que, ok, agora vocês já conhecem e sabem que se chama Paulo) completou três anos, contando a partir da primeira vez que ficamos (detesto o verbo ficar, é um pouco quinta série demais, mas acho que não tem um sinônimo apropriado que não seja implicitamente sexual – “primeira noite que passamos juntos” parece coisa de quem diz “fazer amor”, por exemplo). Ao longo desses três anos, minha vida mudou muito, junto com esse relacionamento – não é só que o relacionamento mudou minha vida ou que as outras mudanças mudaram o relacionamento, mas uma certa construção conjunta, o namoro e as outras áreas da minha vida, se construindo e se aprimorando. E, mesmo que eu praticamente não tenha ficado solteira desde meu primeiro beijo, aos 14 anos, foi só nesse atual relacionamento que aprendi que relacionamentos são feitos para te fazer bem, não para sofrer.

Casal descolado no Central Park.

Casal descolado no Central Park.

Não é segredo que eu passei seis anos da minha vida, da adolescência ao começo dessa vida mais ou menos adulta, em um relacionamento que não me fez nada bem. Meu breve primeiro relacionamento adolescente anterior também não tinha sido dos mais saudáveis: um mês de sessões de pegação em qualquer canto escuro misturado com muito drama, e um pé na bunda trágico com direito a trilha sonora de novela e muitas lágrimas no meio do pátio do colégio (aproveito para dizer que o pé na bunda em questão – meu primeiro – completa dez anos em outubro, e planejo uma festa para comemorar). Ou seja: até meus 20 anos, eu não tinha sacado muito como relacionamentos tinham que ser.

Na minha cabeça, relacionamentos eram exagerados, passionais, fadados à tragédia, baseados em intensidade (não importa se boa ou ruim), gritos (de prazer ou dor, dava na mesma), brigas, objetos jogados na parede, declarações românticas em momentos inoportunos, coincidências cósmicas dignas de final de temporada. Na minha cabeça, relacionamentos eram como todos os livros, séries e filmes tinham me ensinado que eles deviam ser.


L: I thought our story was epic, you know, you and me.
V: Epic how?
L: Spanning years and continents. Lives ruined, bloodshed. EPIC.
(…)
V: Come on. Ruined lives? Bloodshed? You really think a relationship should be that hard?
L: No one writes songs about the ones that come easy.

Aprendi na marra que não era o caso, que insistir em um relacionamento assim é dar murro em ponta de faca, que anos a fio desse tipo de drama não te levam para um plano superior de amor, emoção e sentimentos, não te tornam uma heroína de ficção, só te deixam esgotada, vazia, exausta, por um fio. Me livrei, me salvei, e o tempo de recuperação foi dolorido, foi o processo de descobrir quem eu era por baixo de todos os escudos e reflexos que eu tinha criado, por baixo do medo e da agressividade, por baixo do desgaste. Mas reforcei minhas procuras por ajuda, fui me reestabelecendo, e, bem no momento que estava me sentindo eu mesma de novo, comecei a me relacionar com o Paulo. Já tinha um crush pouco discreto nele desde o começo da faculdade, mas os timings nunca estavam certos (eu estava nesse relacionamento complicado, por exemplo), até se acertarem no final de abril de 2012.

Casal descolado no Central Park, vistos por outro ângulo.

Casal descolado no Central Park, vistos por outro ângulo.

Foi a partir desse dia que comecei a aprender quem eu sou, por completo, num relacionamento – diferente do meu eu desmontado e maleável dos relacionamentos anteriores. Foi quando aprendi, também, que relacionamentos são mil vezes melhor quando eles te fazem bem; que brigar é sinal de que algo precisa ser resolvido, não sinal de sucesso e excesso de amor; que ainda tinha (tenho) muitos bloqueios por conta dos traumas anteriores, mas que, com a pessoa certa e bastante paciência, é possível lidar com eles; que conversar é uma forma muito mais eficiente de resolver problemas do que arremessar coisas pela janela; que parar uma conversa antes que coisas ruins sejam ditas é uma ideia bem melhor do que gritar até os vizinhos interferirem; que amor tem a ver com cuidar do outro, com empatia, com preocupação, com companheirismo e parceria, e não com desejo de possuir, controlar ou consertar o outro. Aprendi que “eu te amo” é muito melhor quando soa como uma declaração sincera, e não como um pedido de desculpas ou uma lamentação.

Nos últimos três anos, eu e o Paulo nos aproximamos cada vez mais, nos apaixonamos de um jeito natural e alegre e tranquilo, fomos aos poucos quebrando as barreiras que tínhamos com relacionamentos, crescemos muito juntos, e me sinto tão bem com ele que estou até aqui fazendo isso de me abrir para vocês, leitores de blógue, sobre coisas que para mim são difíceis de abordar com sinceridade e calma. Fica aqui, então, um agradecimento público a essa pessoa que me faz tão bem, sem a qual eu não sei como teria chegado ao ponto em que estou com minha vida.

McCarren Park, 2014.

McCarren Park, 2014.

[P.S.: falei mais um pouquinho sobre amor, relacionamentos y otras cositas más na entrevista que dei pra Mariana T.K. no Baby Tears.]